segunda-feira, 4 de junho de 2012

Senescer

Oi, gente.

Beleza? Atrasado. Pois é, tava enrolado editando o vídeo de Cowboy Bebop. A primeira parte já ta pronta, mas as outras vão demorar mais um tico. Além disso, me faltava inspiração ou interesse para escrever alguma coisa. Até que na sexta, vi um tema interessante no Telecurso Tecendo o Saber.

Grazadeus tiraram o programa do ar, porque já tava enchendo o saco. Fora que em determinados momentos eles chegam a insultar a inteligência do telespectador. Bom, é um telecurso, eles são assim mesmo, é preciso ter paciência. Tergiversei. Enfim, num episódio lá, o personagem fazia aniversário e estava ficando mais velho. Negava-se a admitir a velhice. O final é um mistério, já que desliguei.

O fato é que me fez pensar. Vezes e mais vezes discutimos isso em aulas na faculdade (três a quatro anos atrás), mas só agora me chamou mesmo atenção para a coisa, sabe. Envelhecer. Fora os animes, que me ensinaram que devo viver a vida sem arrependimentos. Ligando os pontos, vi que a coisa tava feia para o meu lado. Mal cheguei à metade da metade de um século e já me arrependo de inúmeras coisas. Será que vou conseguir chegar à velhice?

Daí, resolvi pesquisar em alguns textos de Aprendizagem Motora (matéria da faculdade de um dos melhores professores que já tive, o professor Anderson) e outras matérias na Internet para discorrer sobre isso aqui. Vamos ver, então?

Como definir o envelhecimento? Bem, é um processo de degradação progressiva e diferencial. Todo organismo multicelular possui um tempo limitado de vida, sofrendo mudanças fisiológicas com o passar dos anos. É impossível datar o começo do envelhecimento em si – sua velocidade e gravidade variam de indivíduo para indivíduo.



Existem seres unicelulares que podem chegar a centenas de anos, mas sem haver variabilidade genética. Talvez seja uma questão de diversificar a vida, sendo o preço um período mais curto de existência. E esta é só mais uma divagação dieguiana, sem bases científicas.

Vale também distinguir duas coisas. Senescência resulta do somatório das funções orgânicas, funcionais e psicológicas do envelhecimento normal. Senelidade são as afecções acometidas a indivíduos idosos.

Outra forma de ver é que tal processo seria um pagamento biológico que o organismo faz por dívidas contraídas pela adaptação neuro-endócrina-metabólica durante toda a vida. Procevê. Já, já explico melhor. Importante frisar também que, apesar de o organismo envelhecer como um todo, os órgãos, tecidos, células e estruturas subcelulares envelhecem em tempos diferentes.

Pois é, o tempo vai passando e uma série de alterações acontecem em nossos corpos, fazendo com que o equilíbrio homeostático e as funções fisiológicas gradualmente comecem a declinar. De maneira geral (bastante geral, eu diria), é mais ou menos isso que acontece:

  • Aumento da massa gorda;
  • Diminuição da força muscular;
  • Diminuição da capacidade de síntese de proteínas;
  • Diminuição de cálcio dos ossos;
  • Diminuição do fluxo sanguíneo para os rins, fígado e cérebro;
  • Diminuição da capacidade dos rins para eliminar toxinas e medicamentos;
  • Diminuição da frequência cardíaca máxima e sem alteração na de repouso;
  • Diminuição do débito cardíaco máximo (saída de sangue do coração);
  • Diminuição da tolerância em lactose;
  • Diminuição da capacidade pulmonar de mobilizar o ar;
  • Aumento da quantidade de ar retido nos pulmões após a expiração;
  • Diminuição da função celular de combate às infecções (declínio das funções imunológicas).

Basicamente. Ainda existem outras alterações a serem citadas – mas o texto ficaria demasiadamente grande, então vamos só nos elementares, mesmo. Observando tais elementos, o que é possível concluir é: grande parte das pessoas morrerá de problemas vasculares, arteriosclerose, câncer ou demência.

Antes de especificar exatamente como as coisas acontecem, é preciso discorrer um pouco mais sobre como ocorre o processo. Existem duas teorias para explicar o envelhecer. Uma diz que as células morrem após certo número de divisões. Programado pelo próprio organismo. À medida que as células vão morrendo, os órgãos começam a apresentar mau funcionamento e dificuldades para manter as funções biológicas para a vida. O nome dessa teoria é Teoria do Envelhecimento Programado.

Outra, mais aceita, é a Teoria dos Radicais Livres. Ela diz que as células envelhecem em consequência de danos acumulados devido às reações químicas que ocorrem no interior das células.Durante essas reações, são produzidas as toxinas conhecidas como radicais livres. Eles nada mais são que substâncias tóxicas instáveis, que procuram emparelhar seu elétron livre e conseguir estabilidade, danificando as células. Oxidam praticamente tudo, podendo inclusive gerar mais radicais livres.

Destarte, destroem enzimas e atacam células, causam danos estruturais, levando ao mau funcionamento e morte. Nem mesmo as células nervosas estariam livres – e elas são incapazes de se reproduzir – havendo menos conexões sinápticas, levando a perdas das capacidades funcionais. Tal teoria é mais aceita porque muitas doenças, como as doenças coronárias e a arteriosclerose, são, segundo as evidências, causadas pelos radicais livres.

Livres e radicais, as tias!

Procevê. O fato é que, até os trinta anos de idade, aproximadamente, o organismo humano tende a homeostase, ao equilíbrio – a degradação e a regeneração das células são equiparáveis. Dos trinta em diante, o processo de envelhecimento começa a se acentuar. Um fator curioso é que a inteligência tende a se manter estável. O vocabulário, a capacidade de acesso e a compreensão são pouco prejudicados com o passar dos anos.

Há uma ressalva pela memória de trabalho ou de curto prazo, onde acontece um declínio. Ela é a manipulação de informação registrada na memória consciente, como recordar um número de telefone tempo suficiente para anotá-lo, calcular mentalmente o preço de uma venda, percorrer mentalmente um percurso.

Entrementes, o défice é grande. Diversos fatores contribuem para o envelhecimento. Situações de estresse repetitivos e intensos (seja por doença e cirurgia ou por tensão e sofrimento) aumentam os níveis de cortisol e inibiem o sistema imunológico. Exposição repetida ao frio (também como causadora de estresse) aumenta função tireodiana, reduzindo a proteção contra o envelhecimento. Radiações excitam o eixo hipotálamo-hipofisário, causando maior produção de radicais livres.

Luminosidade prolongada, intensa e exagerada deprime a secreção da glândula pineal (melatonina). Até mesmo a alimentar-se em demasia parece intervir no envelhecimento por ser estimulante dos lípedes. Todavia, a desnutrição também estimula o eixo hipotálamo-hipófise. A atividade sexual e o tabagismo aceleram o processo.

Pois é. Impossível fugir disso tudo, mas para amenizar os efeitos, o procedimento é simples: basta evitar o sedentarismo e acrescentar algum tipo de atividade física. O envelhecimento fisiológico (perda de força muscular, perda óssea, acréscimo de massa gorda) é diretamente dependente do estilo de vida que a pessoa assume e mantém desde jovem.

Deixemos isso para logo mais daqui a pouco. Vamos ver passo a passo alguns processos que ocorrem no corpo. Igual, a estatura diminui cerca de um centímetro, o arco dos pés são reduzidos, bem como a curvatura da coluna vertebral e do diâmetro dos discos intervertebrais.

Esses discos são constituídos por núcleo pulposo e anel fibrocartilaginoso. Conforme a idade avança, eles vão perdendo água e suas fibras colágenas tornam-se espessas, em maior número. O anel fibroso perde células, o depósito de cálcio, além das fibras colágenas ficarem espessas e delgadas. A espessura do disco diminui, acentuando as curvas da coluna. Além disso, a caixa torácica e o crânio tendem a aumentar – e o nariz e a orelha nunca param de crescer.

O tecido adiposo começa a ser acumulado no tronco – região abdominal e em tornos – e diminuição nos membros inferiores. Todos os órgãos perdem células, sendo os mais afetados os rins e o fígado (termos de massa). Os músculos, como eu já disse um monte de vezes, sofrem perda ponderal.

Os ossos são uma estrutura dinâmica, sofrem remodelação durante toda a vida. Com o passar dos anos, tende a se tornar mais poroso e delgado pela dilatação do sistema de irrigação dos vasos esponjoso. Além disso, a atividade celular de caráter medular e hematopoiética sofrem um desequilíbrio quanto à reabsorção e formação óssea, resultando na perda. Na mulher, devido à menopausa, o processo é dez vezes mais rápido.

A perda de massa muscular é substituída por tecido adiposo e conjuntivo. Há o aumento do cumprimento do tendão e diminuição da secção transversal – significa que a resistência tendinosa diminui. Os músculos menos utilizados vão entrando em atrofia. O nome dado a esse processo é Sarcopenia.


O pior de tudo é que ela é maior nos membros inferiores, comprometendo o equilíbrio e a marcha. Mais ainda: redução do conteúdo, principalmente de água e outras substâncias dos tendões e ligamentos com alterações no sistema colágeno (elástico), causa o enrijecimento das articulações. Enferruja, mesmo.

Quanto à placa motora, há o aumento do número de pregas, tornando a fenda sináptica mais ampla. Assim, há menor área de contato entre o axônio e a placa motora, dificultando a passagem do estímulo.

Nas articulações sinoviais, a cartilagem torna-se mais espessa, surgindo rachaduras e fendas nas superfícies. Quanto as artérias, sofrem uma rigidez. A pressão arterial sistólica aumenta e acarreta a hipertrofia ventricular esquerda e o aumento do átrio esquerdo. As outras artérias do corpo são acometidas pelo mesmo processo arteriosclerótico, reduzindo a luz nos vasos. No homem, as artérias carótidas, renais e coronárias estreitam-se mais intensamente do que na mulher.

Ocorre um aumento de gordura nos átrios e septo intercavitário, além de uma calcificação do miocárdio. O fígado, mesmo perdendo massa e capacidade de captação de medicamentos, de excretar albumina, colesterol e ácidos biliares e cerca de trinta e sete por cento de captação da síntese protéica, mantém sua arquitetura. O rim diminui no peso, reduzindo a área de filtração glomerular e funções fisiológicas.

A traqueia torna-se mais rígida pelas calcificações e aumenta de diâmetro, aumentando o chamado espaço morto. As vias pulmonares tornam-se mais frouxas, aumentando o volume residual. A eficiência das trocas gasosas é, portanto, comprometida. Mesmo a tosse perde seu efeito, tendo menos efetividade para eliminar partículas (atrofia do epitélio ciliar e das glândulas da mucosa brônquica). Até o muco secretado perde sua qualidade.
A bexiga e a uretra podem ter desequilibrados os músculos estriados (voluntários) e lisos (autonômico). A musculatura torna-se mais fraca, reduzindo a força de contração, tendo menor dilatação da bexiga retendo apenas 250 mL (um jovem retém 600 mL). E como perde força de contração, ficam armazenados cerca de 100 mL após a micção.
Em um organismo jovem, quando a bexiga se enche até a metade, os receptores da parede vesical são ativados e avisam o sistema nervoso da necessidade de evacuação. Com o tempo, por alterações no sistema nervoso e nos receptores da bexiga, isso só ocorre quando a bexiga está totalmente cheia,ocorrendo a urgência urinária.
Há uma atrofia e involução do timo, que perde noventa e cinco por cento de sua massa até os cinquenta anos de idade. Por consequência, a função imune diminui bastante – queda dos linfócitos T e das interleucinas.
Existem também as variações nas glândulas. A hipófise secreta, produz e armazena vários hormônios. Um deles é o GH, o hormônio do crescimento, importante no metabolismo de carboidratos, lipídeos e proteínas, estimulando o crescimento tecidual. Ele começa a reduzir a partir dos trinta anos de idade. Esse é um dos fatores da arteriosclerose, comprometendo as funções cardíacas e a mortalidade cardiovascular. Por isso, a tendência é a pessoa se sentir fadigada, letárgica e com bem pouco bem-estar.

Outra glândula que friso é a glândula pineal. Localiza-se na base do diencéfalo, sendo controlada pelo hipotálamo (pelo núcleo supraquiasmático, recebendo aferência retiniana). Ela produz um hormônio chamado melatonina, que apresenta alterações no sono, sendo inibida pela luminosidade. Este tem regulação do sono e do ritmo biológico – e sua produção ocorre no próprio sono, o que mostra a importância do repouso.
A melatonina dita o ritmo de processos fisiológicos, tornando a digestão mais lenta, abaixando a temperatura corporal e o ritmo cardíaco, estimulando o sistema imune. Com o envelhecimento, esses efeitos são praticamente nulos. Perde-se parte do sono REM, dos sonhos. Desperta-se mais facilmente e adormece-se mais dificilmente.
Mais uma ressalva: homens e mulheres envelhecem de maneira diferente. A mudança no eixo hipotálamo-hipófise-gonodal dos homens são lentas e sutis, diminuindo aos poucos o estímulo gonadotrófico. Nas mulheres, a mudança é rápida e dramática (Menopausa). Quase de uma vez só. A adrenopausa ocorre em ambos os sexos, dividindo espaço com a manutenção dos níveis plasmáticos de cortisol.
Porém, as alterações mais importantes ocorrem no cérebro. Ele diminui de peso e de tamanho, estando associada à perda neural, pouco uniforme nas áreas do cérebro. Ocorre especialmente nas áreas dos giros pré-centrais (área motora voluntária), nos giros temporais e no cerebelo. As fibras nervosas perdem sua mielina, responsável pela velocidade de condução do estímulo nervoso. Os dendritos dos neurônios diminuem de número em várias áreas, reduzindo as superfícies para sinapses.
No giro do hipocampo (associado à memória para fatos recentes, a memória de trabalho que falei ali em cima) encontram-se placas neuríticas e emaranhados neurofibrilares. Seu significado ainda é um mistério, mas tais elementos são bastante comuns em pacientes com Alzheimer e Parkinson. Ainda: diminuição das catecolaminas, dopamina, dos reflexos posturais e da quarta fase do sono. As alterações são: esquecimento benigno, marcha senil e o despertar precoce.
Quanto às funções intelectuais, há uma dificuldade no processo de aprendizagem e memorização – alterações químicas neurológicas e circulatórias que afetam a função cerebral: diminuição da eficácia da oxigenação e nutrição celular. A dificuldade na aprendizagem está relacionada às deficiências das sinapses e da disponibilidade de neurotransmissores. Acarreta, então, a perda da função intelectual.
Como só a memória de curto prazo é efetivamente atingida, existe dificuldade na organização e utilização das informações armazenadas, além da diminuição da memória visual e auditiva (curto prazo, somente). A inteligência, como já dito, é mantida intacta. O que ocorre é o estresse – fadiga mental, desinteresse, diminuição da atenção e concentração. É mesmo.

Por isso que vovôs podem dirigir, de boa!
Acontece também uma diminuição na velocidade de reflexos e execução de gestos e um aumento do tempo de reação devido à diminuição da resposta motora a um estímulo sensorial.
Procevê. Tudo isso acometerá cada um de nós. Talvez já te acometa, alguns fatores. Como visto, a um declínio natural de todo corpo, que caminha para a morte. Agora, se tal passagem será tranquila ou conturbada, vai depender. Mesmo porque, os hábitos é quem determinarão quando os processos vão começar a acontecer.
Caso uma pessoa seja sedentária, maiores as chances de perder sua autonomia e independência na velhice. E ser afetada por todos esses fatores que citei aqui. Claro que existem os fatores genéticos, mas é melhor você se cuidar. Tô dizendo. Atividades físicas regulares – tanto de força, quanto de resistência – contribuem para uma vida melhor, mais alegre, no mínimo.
Ninguém vai viver mais por praticar exercícios. Ninguém, eu disse. Mas vai viver melhor, sem dúvida nenhuma. Cada um tem em si um tempo determinado de vida. Você pode acelerar o processo e torná-lo doloroso, bem como encará-lo de forma mais serena e amena possível. Todos vamos viver apenas o tanto que devemos viver.
Por isso, é preciso saber cultivar as amizades, aproveitar os momentos e praticar exercícios. Certo? Espero que ninguém tenha de viver em asilos por desafeto dos filhos, ou hospitais por escolhas insensatas. Que ninguém fique largado nos cantos pensando na vida passada, severina que só. Bem, ao menos é isso que vou tentar fazer, na medida do possível.
E te convido a fazer o mesmo. Que tal?

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