Massa? Tomara. Aqui tá daquele jeito de sempre. É, como sempre. Bom, não tenho muitas novidades, sabe. Já tô a duas semanas traduzindo o volume 4 de Scott e não ainda falta um tiquinho. Pois é, vou parar de falar sobre isso. Tá chato já, né?
É mesmo. Acho melhor continuar nosso assunto das últimas semanas, mesmo porque esse vai ser o mais longo, para acabar de uma vez por todos com esse assunto. Ah é, se você ainda não viu as duas outras primeiras partes, pode acessar clicando aqui e depois aqui. Dá uma passadinha lá!
Então, rumbora lá!
Nas últimas teorias, houve uma tentativa de separação do Amor do ideal romântico do Amor da absoluta unidade. Duas outras teorias ainda podem ser deslumbradas, aindana contemporaneidade: a de Bergson e a de Sartre. Senão vejamos...
Bergson tem a fórmula do miticismo: “Deus é Amor e objeto de Amor” – embora os místicos não possuírem a tese de que Deus ame o homem (oferece sua salvação, bem aventurança e participação na sua “glória”). “Não há mais separação completa entre quem ama e quem é amado: Deus está presente e a alegria é sem limites”.
Isso aconteceria num arrebatamento místico, numa unidade entre homem e Deus. Tipo o que não aconteceu ontem, entende? Pois é.
Assim, o Amor do homem por Deus é o mesmo de Deus por todos os homens. Não seria a fraternidade do ideal racional nem a intensificação de uma simpatia inata do homem pelo homem, sim um instinto na raiz da sensibilidade e da razão. Seria idêntico ao Amor de Deus por sua obra, a tudo que criou, sendo capaz de revelar a quem saiba interrogá-lo o mistério da criação.
A esse Amor caberia aperfeiçoar a criação humana e devolver ao universo sua função essencial de ser “uma máquina destinada a formar deuses” – visão spinoziana, romântica, panteísta tendo Amor como unidade e identidade. Assim, acaba por ser um “Amor sagrado”.
Não menos romântico é o “Amor profano” de Sartre. Para ele, Amor seria a tentativa ou projeto de realizar a unidade ou assimilação entre o eu e o outro. Por parte, a exigência de que ele seja para o outro uma totalidade, um mundo, um fim absoluto. O Amor é um querer ser amado, “querer situar-se além de todo sistema de valores posto pelos outros como uma condição de toda valorização e como fundamento objeto de todos os valores”.
Dessa forma, “O olhar do outro não me permeia mais de finitude, não imobiliza mais o meu ser naquilo que sou simplesmente; não poderei mais ser olhado como feio, pequeno, vil, pois isso representa uma limitação do meu ser e uma apreensão de minha finitude enquanto finitude”.
E, o outro tem de me querer assim por livre vontade, fazendo com que a posse física no Amor seja insuficiente e frustrante. Em outras palavras, é um querer ser desejado. É querer ser necessário para um outro, ocupar espaço quase completamente em seus pensamentos e em sua vida, sentir-se vivo a partir disso.
É preciso que o outro seja livre para querer amar-me e para ver em mim o infinito. Esse seria o conflito e o fracasso do Amor – por um lado o outro exije de mim a mesma coisa que eu exijo dele (ser amado e valer para mim como a totalidade infinita do mundo).
Por outro, justamente por querer isso, por amar-me, “frustar-me radicalmente com o seu próprio Amor: eu exigia que ele assumisse o meu ser como objeto privilegiado, mantendo-se como pura subjetividade em relação a mim, mas, desde que me ama, em vez disso reconhece-me como sujeito e mergulha na sua objetividade diante da minha subjetividade”.
Isso quer dizer que no Amor, cada um quer ser para o outro objeto absoluto, o mundo, a totalidade infinita, sendo que o outro necessitaria permanecer subjetivamente livre. Como ambos querem exatamente a mesma coisa, o único resultado do Amor é um conflito necessário e um fracasso inevitável.
Calma, moça, calma. Existiria, entretanto, outro caminho, contrário do que foi descrito: em vez de projetar absorver o outro conservando sua alteridade, posso cogitar fazer-me absorver pelo outro e perder-me na subjetividade para desembaraçar-me da minha.
Assim, em vez de procurar existir para o outro como objeto-limite (totalidade infinita), procurarei fazer-me como objeto entre outros, como instrumento a ser utilizado, como uma coisa. Porém, nunca sendo um simples instrumento inanimado, coisa humilde, obscena ou ridícula. Então, não haveria salvação no Amor: o conflito e o fracasso são intrinsecamente necessários.
Pelo que entendo, meus amigos e minhas amigas, isso nada mais seria a diferença entre paixão e Amor propriamente dito, sabe. Olha só, num primeiro momento queremos só mostrar o quão incríveis e interessantes somos para conquista do outro. Em seguida, queremos ser úteis e necessários (dentro de uma relação), mas o conflito pela impossibilidade de medir uma reciprocidade no Amor, causa do conflito que bem diz Sartre.
Sartre ainda vê conflito análogo no desejo sexual. “Possuir a transcedência do outro como pura transcedência e no entanto como corpo: reduzir o outro à sua simples factalidade, pois ele ainda está no meio do meu mundo, mas fazer que essa factalidade seja uma representação perpétua da sua transcedência nadificante”.
Da mesma forma que o Amor tende ao masoquismo, o desejo sexual tende ao sadismo, ou seja, a não reciprocidade das relações sexuais. O Amor seria projeto da fusão absoluta de dois infinitos – só podem excluir-se e contradizer-se.
Querer ser amado é querer a totalidade do ser: o mundo ou Deus mesmo. E o outro, o amado, deveria ser um sujeito igualmente absoluto e infinito, capaz de tomar absoluto e infinito quem o ama – romantismo frustrado e consciente de sua falência.
Vamos sair desse ideal romântico, então. E vamos discutir o casamento. E essa teoria é muito forte e concisa. Quer ver?

A teoria de Russell evidencia a fragilidade do Amor romântico, que pretende ser a totalidade da vida, onde caminha à exaustão e ao malogro. “O Amor é o que dá valor intrínseco a um matrimônio e como arte e o pensamento, é uma das coisas supremas que tornam a vida digna de ser vivida”.
Embora não haja bom casamento sem Amor, os melhores casamentos têm um objeto que vai além do Amor. O Amor recíproco de duas pessoas é demasiado circunscrito, demasiado separado da comunidade para ser, por si mesmo, o objetivo principal da vida. Não é, em si mesmo, fonte suficiente de atividade, não oferece perspectivas suficientes para construir uma existência em que se possa encontrar uma satisfação fundamental.
Torna-se um túmulo de alegrias mortas, não uma fonte de uma nova vida. Esse mal é inseparável de qualquer finalidade atingível numa única emoção suprema. Os únicos fins adequáveis são os que tem incidência no futuro, que nunca podem ser plenamente alcançados, estando em constante ‘crescendo’ e são infinitos, como a infinitude da base humana.
E não é que é? É preciso planejar, pensar o que fazer e onde estar com a outra pessoa. Sempre fazer planos, compartilhar sonhos e sempre ter, de certa forma, espírito aventureiro e bom ânimo. É como dizem por aí, só Amor não é bastante. É preciso um pouco de sonho, ânimo, partilha e dinheiro, claro.
Só quando o Amor está ligado a algum fim infinito dessa espécie pode ter a seriedade e a profundidade do que é capaz. “Com isto, o Amor não é negado, mas reconduzido aos limites que o definem”. Mais: “o Amor é capaz de romper o duro cerne do eu, porque é uma espécie de colaboração biológica, na qual as emoções de um são necessárias à satisfação dos propósitos instintivos do outro”.
Sendo assim, ele não requer o sacrifício das pessoas que se amam, mas constitui enriquecimento e realização da sua personalidade. Não requer o endurecimento do espírito de ambas as partes, mas o respeito à autonomia recíproca e a fidelidade aos compromissos assumidos.
Então seria indispensável a igualdade moral e jurídica entre os sexos, incluindo a liberalização das regras morais que restringem e inibem com demasia a rigidez das relações sexuais. Mas vale lembrar: “a relação sexual sem Amor tem valor mínimo e deve ser considerada uma primeira experiência, capaz de dar uma noção aproximada de Amor”.

Bom, em todas as teorias já mencionadas, é possível vinculá-las a duas noções fundamentais. A primeira é a do Amor como relação que não anula a realidade individual e a autonomia dos seres que as estabelece, mas tende a reforçá-las, por meio de um intercâmbio no qual um procura o bem do outro como o seu próprio. Assim o amor tende a reciprocidade e sempre é recíproco na sua forma bem-sucedida, chamada de união (de interesses, isentos, propósitos, necessidades, emoções correlativas), mas nunca de “unidade” no sentido próprio do termo.
O Amor seria uma relação finita entre seres finitos. “Relação finita” significa não necessariamente coisas inelutáveis, mas condicionadas por elementos e situações aptas a explicar suas modalidades particulares. Relações sujeitas ao êxito e ao malogro, suscetível de êxitos só parciais e de estabilidade relativa.
Nesse caso, o Amor nunca é “tudo” nem constitui a solução de todos os problemas humanos. Cada tipo ou espécie de Amor será delimitado e definido na relação que o constitui – interesses, necessidades, aspirações, preocupações – cuja compartição será base ou o motivo do Amor, como controle emotivo.
O controle emotivo pode ser evidenciado, por exemplo, a observação à fidelidade no Amor – noção fria de dever. Assim, as noções de “unidade”, “todo”, “infinito”, “absoluto” são descabidos, o Amor perde a substância cósmica tanto quanto ganha em substância humana e seu significado para formação e conservação da personalidade humana torna-se fundamental. Só irá durar quando os dois ainda usufrutem da relação.
Nesse sentido, essa noção de Amor é ilustrada por: Platão, Aristóteles, São Tomás, Descartes, Leibniz, Scheler, Russell.
A segunda teoria é a que vê nele uma unidade absoluta ou infinita, consciência, desejo ou projeto de tal unidade. Desse ponto de vista, o Amor deixa de ser um fenômeno humano e passa a ser um fenômeno cósmico ou a natureza do Princípio ou da Realidade Suprema.
O êxito ou malogro do Amor humano passa a ser indiferente; aliás, o Amor humano como aspiração à identidade absoluta ou tentativa por parte do infinito de identificar-se com o Infinito; está condenado ao insucesso e reduzido a uma aspiração unilateral, pela qual a reciprocidade é decepcionante que se contenta em imaginar a vaga forma de um ideal fugaz.
E existem duas conseqüências: a infinitização das alternativas amorosas que, consideradas como manifestações do Infinito, assumem um significado e um alcance proporcional e grotesco, sem relação com a importância real que têm para a personalidade humana e para suas relações com os outros.
A outra conseqüência é que tal relação destina-se ao fracasso – sendo o próprio êxito, na reciprocidade e possibilidade da comparticipação é assumido com sinal de fracasso. Podem ser encontradas em: Spinoza, Hegel, Feuerbach, Bergson, Sartre.
Prontinho. Assim diz um dicionário de Filosofia – que vou ficar devendo o nome. Algumas passagens foram descaradamente copiadas, como eu já disse anteriormente. Mas isso não é importante. Não quero criar uma teoria mirabolante, só provar para vocês, amiguinho e amiguinhas, que é muito simplório dizer que Amor não existe porque tomou um fora ou o relacionamento vai aos trancos e barrancos. Amor não se trata apenas de algo referente a relações sexuais.
Aliás, como já disse umas quatro ou cinco vezes em diferentes partes dessa síntese e das outras (e na de saúde também, depois vai lá), pode até diminuir. Existem muitos pensadores que deram seus pareceres sobre – e você pode ler um bem atual e contextualizado que é o de Russell, um dos meus preferidos. E ampliar os horizontes.
A coisa não é como nos é mostrado, nem tão piegas, muito menos simplesmente gostar. É um sentimento que se estende ao outro, que busca envolvê-lo e até mesmo entendê-lo para se completar. Mas isso, claro, já é a minha concepção. Influenciada por esses conceitos e meus pareceres sobre esse mundão de meu Deus.
E você? Conseguiu algo com as teoria ou elas pouco serviram? Foi o bastante ou de nada valeram? Uma coisa eu te digo, e não precisa se preocupar com isso, meus bons e minhas boas amiguinhas serelepes, Amor existe! E está presente em todos os dias de nossas vidas. Pode crer!
Então tá. Espero que tenham gostado dessa trilogia. Quem sabe não volto tagarelando sobre isso qualquer hora... enfim, fica assim então. Te vejo por aqui.
E por favor não some! Até logo!!


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