sexta-feira, 12 de outubro de 2012

A Besta que Gritou Amor no Coração do Mundo

(Harlan Ellinson)

Depois de uma longa discussão com o dedetizador que vinha uma vez por mês dedetizar nos arredores de sua casa na sessão Ruxion de Baltimore, William Sterog roubou uma garrafa de Malathion, um inseticida mortal poderoso, do caminhoneiro, e saiu cedo naquela manhã, seguindo a rota do leiteiro da vizinhança, levando quantidades médio-grandes em garrafas deixando-os na soleira de setenta casas. Dentro de seis horas das atividades de Bill Sterog, duzentos homens, mulheres e crianças morreram em convulsiva agonia.

Sabendo que um tio que vivia em Buffalo estava morrendo de câncer nas glândulas linfáticas, William Sterog ajudou sua mãe a levar apressadamente três malas, deixando-a no Aerporto Friendship, onde ele a colocou num jato da Eastern Airlanes, junto a uma simples mas eficiente bomba-relógio com um despertador Westcrox Travalarm e quatro bananas de dinamites em seus aparatos. O jato explodiu em algum lugar em Harrisburg, Pennsylvannia.  Noventa e três pessoas – incluindo a mãe de Bill Sterog – foram mortas na explosão, e destroços flamejantes atingiram mais sete numa piscina pública.

Num domingo de Novembro, William Sterog encaminhava-se para Babe Ruth Plaza na Rua 33, onde se tornou um dos 54.000 fãs alucinados do Memorial Stadium para ver o Baltimore Colts jogar com os Green Bay Packers. Ele estava vestindo calças de flanela cinza, uma blusa azul-marinho de gola alta e uma pesada camisola de malha irlandesa feita à mão debaixo de sua parca. Com três minutos e treze segundos do último quarto, e Baltimore levando com dezessete a dezesseis na linha de dezoito jardas dos Green Bay Packers, Bill Sterog abriu caminho acima até a saída dos assentos medianos, e retirou de sua parca do exército dos Estados Unidos uma submetralhadora M3 que havia comprado por $ 49,95 via correspondência por um traficante de armas de Alexandria, Virginia. Com 53.999 fãs gritando de pé – ampliando seu campo de tiro – quando a bola foi lançada ao quarto zagueiro, que aguardava com uma tática para um chute certeiro ao gol, Bill Sterog abriu fogo nas costas da multidão abaixo dele. Antes que a mobilização o detivesse, ele havia matado quarenta e quatro pessoas.

Quando a primeira Força Expedicionária da galáxia elíptica do Escultor aterrisou no segundo planeta da estrela de quarta magnitude designada Flammarion Theta, encontraram uma estátua de trinta e sete pés de altura esculpida com uma substância branco-azulada até então desconhecida – nada parecida com pedra, algo como metal – na forma de um homem. A imagem estava descalça, envolta em uma roupagem que lembrava vagamente uma toga, a cabeça num apertado gorro e carregando na mão esquerda um peculiar artefato com bola e anel de outro tipo de substância. O rosto da imagem era curiosamente beatífico. Ela tinha bochechas proeminentes; olhos fundos; uma boca pequena, quase alienígena; e um nariz com grandes narinas. A estátua assomava às enormes estruturas curvilíneas acabadas e destruídas de algum arquiteto esquecido. Os membros da Força Expedicionária comentaram a expressão peculiar que notaram no rosto da estátua. Nenhum daqueles homens, de pé sob a grandiosa lua de bronze que compartilhavam daquele céu noturno numa cor de entardecer bastante diferente da que agora brilhava numa impensável e distante Terra no tempo e no espaço, haviam ouvido falar de William Sterog. Assim, nenhum deles sabia que aquela expressão da estátua gigante era a mesma que Bill Sterog havia mostrado ao juiz que estava prestes a sentenciá-lo a morte na câmara letal de gás: “Eu amo a todos no mundo. Eu amo. Deus me ajude, eu amo vocês, todos vocês!”. Ele estava gritando.


Por entre quando, através dos interstícios de pensamento chamado tempo, através das imagens reflexivas chamada espaço; outro então, outro agora. Esse lugar, bem ali. Para além dos conceitos, da trabalhada transubstanciação da simplicidade. Quarenta e tantos passos breves para o lado, bastante breves.  Ali, no último centro, com tudo irradiando, tornando-se infinitamente mais complexo, o enigma da simetria, harmonia, cantando de maneira cuidadosamente afinada para tal lugar, onde tudo começou, começa e sempre irá começar. O centro. O por entre quando.

Ou: centena de milhões de anos no futuro. E: centena de milhões mais afastados da borda extrema do espaço mensurável. E: atravessando zonas paralelas de guerra pela a existência de universos paralelos. Finalmente: uma infinidade de atos mentais para além do pensamento humano. Ali: por entre quando.


No nível malva, abarrotado de uma coloração magenta intensa que conciliava com sua forma arqueada, o maníaco aguardava. Ele era um dragão, de dorso grosso e redondo, com a estreita cauda afiada sob o corpo; um pequeno, franzino escudo de ossos perpendiculares em suas costas arqueadas, correndo cauda abaixo, com as pontas para fora; os braços curtos afiados em garras cruzados sobre seu enorme peito. Ele tinha sete cabeças com rostos de cães de um Cérbero ancião. Cada cabeça vigiava, aguardando faminta, insana.  

Ele viu uma brilhante cunha amarelada de luz se mover em direções aleatórias através da malva, sempre se aproximando. Sabia que não poderia correr, o movimento poderia traí-lo, o espectro de luz o acharia instantaneamente. Medo sufocava o maníaco. O espectro o havia perseguido pela inocência e pela humildade e outras nove ofuscações emocionais que tentara. Ele tinha de fazer algo, tirá-los de seu rastro. Mas estava sozinho naquele nível. Havia sido preso ali embaixo algum tempo antes, para purgar suas emoções residuais. Não havia ficado terrivelmente confuso após as mortes, não tinha um pingo de desorientação, nunca tinha ficado preso em si mesmo num nível fechado.

Agora que estava ali, estava sem lugar algum para se esconder, lugar algum para escapar do espectro de luz que o perseguia sistematicamente. Logo poderiam purgá-lo.

O maníaco fez seu último intento: fechou-se em sua mente, todos os sete cérebros, da mesma forma como se fechou no nível malva. Ele expurgou todo pensamento, apagou o fogo das emoções, quebrou os circuitos neurais que alimentavam sua mente. Como uma imensa máquina que vai baixando progressivamente o estado de eficiência, seus pensamentos afrouxaram-se e murcharam-se e empalideceram-se. Então ficou vazio onde havia estado. Sete cabeças de cães dormiam.

O dragão havia deixado de existir nos termos do pensamento, e o espectro de luz passou por ele, batido. Mas aqueles que buscavam ao maníaco estavam sãos, não loucos como ele: a sanidade estava em ordem, e numa ordem que consideravam com muita exigência. O espectro de luz era seguido por detectores de calor, por sensores de alta massividade, por aparatos que detectariam qualquer pista de matéria estranha naquele nível fechado.

Encontraram o maníaco. Apagado como um sol congelando, localizaram-no e transferiram-no; estava incapaz de se movimentar; estava trancado em seu próprio e silencioso crânio.

Mas quando decidiu abrir seu pensamento de novo, num contratempo de desorientação que seguira o total apagão, se encontrou trancado numa ala de drenagem no 3º Nível Vermelho Ativo. Então, com suas sete gargantas, berrou. O som, claro, se dissipou nos abafadores inseridos, antes que voltasse a si. O vazio do som o apavorou ainda mais.

Ele estava embutido em uma substância âmbar que o deixava confortável; sabia ter estado numa era muito anterior, num outro mundo, num outro contínuo, sabia ter estado enfaixado em um leito de hospital. Mas o dragão estava trancado estático no nível vermelho, por entre quando. Seu leito era antigravitacional, sem peso, totalmente relaxante, alimentando-o de nutrientes calmantes e tonificantes através de um soro escondido. Ele estava esperando para ser drenado.


Linah cruzou a sala, seguido por Semph. Semph, o descobridor da drenagem. E seu mais eloquente nêmese, Linah, que tentava Promoção Pública para Procurador. Eles desceram à fileira de pacientes submergidos em âmbar: os sapos, os tambores em cubo de cristal, os exoesqueletos, os transformistas pseudopodais, e o dragão de sete cabeças. Eles pararam diretamente em frente e por sobre o maníaco. Era capaz de olhar para eles; imagens sete vezes vistas; mas era incapaz de fazer um ruído.

“Se eu precisasse de uma razão conclusiva, diria que este é um dos melhores”, Linah disse, inclinando sua cabeça rumo ao maníaco.

Semph submergiu uma vareta de análise dentro da substância âmbar, a extraiu e fez uma leitura das condições do paciente. “Se você precisasse de um aviso de alerta,” Semph disse serenamente, “este poderia ser um dos melhores.”

“A ciência se inclina ante a vontade das massas,” disse Linah.

“Odiaria ter de acreditar nisso,” Semph respondeu rapidamente. Tinha um tom em sua voz que era inominável, havia uma sombra de agressividade em suas palavras.

“Vou conseguir isso, Semph; acredite. Vou garantir a aprovação da resolução pela Concórdia.”

“Linah, há quanto tempo nos conhecemos?”

“Desde de seu terceiro fluxo. Do meu segundo.”

“Justamente. Já te contei uma mentira, já te pedi que fizesse algo que se arrependeria?”

“Não. Não que eu me lembre.”

“Então por que não me ouve desta vez?”

“Porque acho que está errado. Não sou fanático, Semph. Nem estou fazendo isso para proveito político. Sinto profundíssimamente que esta é a melhor chance que jamais tivemos.”

“Nada mais é do que desastre para tudo e todos, por todo tempo passado, e sabe Deus onde à extensão pelo paralelo. Deixaremos de sujar nosso ninho e todos os outros ninhos que jamais tivemos”.

Linah estendeu suas mãos em desdém. “Sobrevivência”.

Semph balançou a cabeça vagarosamente, com uma expressão que refletia seu cansaço. “Queria poder drenar, também.”

“Não pode?”

Semph deu de ombros. “Posso drenar qualquer coisa. Mas o que deixaria não valeria a pena”.

A substância âmbar mudou de tonalidade. Brilhou intensamente em si mesma num azul intenso. “O paciente está pronto,” Semph disse. “Linah, mais uma vez. Eu imploro. Por favor. Detenha-no até a próxima sessão. A Concórdia não precisa fazer isso agora. Deixe me fazer mais alguns testes, deixe me ver o quanto de desvarios ele expele, o quanto de dano que pode causar. Deixe me preparar os relatórios.”

Linah estava firme. Balançou a cabeça em decisão. “Posso assistir a drenagem com você?”

Semph suspirou profundamente. Havia sido vencido e sabia disso. “Sim, tudo bem”.

A substância âmbar começou a alçar-se transportando sua silenciosa carga. Chegou ao nível dos dois homens, e deslizou suavemente pelo ar entre eles. Colocaram-se atrás do contêiner onde o dragão com cabeças de cães estava embutido, e Semph parecia querer dizer algo. Mas não havia nada para dizer.

O suporte cristaloide âmbar desvaneceu e desapareceu, e os homens esvaíram-se e já não estavam ali. Todos reapareceram na câmara de drenagem. A plataforma de radiação estava vazia. O suporte âmbar desceu sem fazer barulho, e a substância esparramou, desaparecendo no descoberto dragão.

O maníaco tentava desesperadamente se mover, manter-se de pé. Sete cabeças estremeciam-se inutilmente. A loucura se sobrepôs aos calmantes e ele foi consumido pelo frenesi, fúria e ódio figadal. Mas não podia se mover. Era tudo o que podia fazer para se manter naquela forma.

Semph girou a banda de seu punho esquerdo. Brilhava em seu interior, num dourado intenso. O som do ar correndo para preencher o vácuo que preenchia a câmara. A plataforma de radiação estava encoberta por uma luz prateada que parecia sair do ar, de uma fonte desconhecida. O dragão era banhado pela luz prateada, e sete grandes bocas abriram de uma só vez, expondo anéis de presas. Então as pálpebras duplas de seus olhos se fecharam.

A dor que sentia no interior de suas cabeças era monstruosa. Um tremor doloroso como se houvesse milhões de bocas em sucção. Seus cérebros eram empurrados, pressurizados, comprimidos, e então purgados.

Semph e Linah desviaram o olhar do pulsante corpo do dragão dirigindo-o para o tanque de drenagem do outro lado da câmara. Foi sendo preenchida da parte inferior enquanto observavam. Enchendo com uma nuvem turva defumada quase incolor, rodeada de faíscas.  “Aí vem,” disse Semph, desnecessariamente.

Linah afastou seus olhos do tanque. O dragão com sete cabeças de cães se agitava. Como se visse através da água rasa, o maníaco começou a se alterar. Com o tanque cheio, o maníaco descobriu-se com mais e mais dificuldades de manter sua forma. Quando mais densa e ofuscante a nuvem dentro do tanque, menos constante era a forma da criatura na plataforma de radiação.

Ao final, estava impossível, o maníaco se entregou. O tanque encheu mais rapidamente e a forma se estremeceu e se alterou e se encolheu e se viu sobreposta na figura de um homem, ao invés do dragão de sete cabeças. Quando o tanque tinha sido preenchido em três quartos e o dragão se tornara uma sombra distante, uma passagem, uma sugestão do que havia sido quando a drenagem começara. Agora a forma humana tornou-se dominante.

Finalmente, o tanque estava cheio e um homem normal estava na plataforma de radiação, arfando arduamente, olhos fechados, músculos saltando involuntariamente.

“Foi drenado,” Semph disse.

“Está tudo no tanque?” Linah perguntou calmamente.

“Não, nada disso.”

“Então...”

“Esse é o resíduo. Inofensivo. Reagentes purgados de grupos sensitivos os neutralizaram. As essências perigosas, as linhas de forças degeneradas que maquiaram o campo... se foram. Totalmente drenadas.”

Linah pareceu incomodado, pela primeira vez. “Para onde foi?”

“Você ama seu semelhante, diga-me.”

“Por favor, Semph! Perguntei aonde foi... para quando foi?”

“E eu perguntei se você se importa com mais alguém?”

“Você sabe a minha resposta... você me conhece! Eu quero saber, me diga, ao menos o que sabe. Aonde... quando...?”

“Então você vai me perdoar, Linah, porque amo meu semelhante, também. Independente de quem seja, aonde quer que esteja; eu preciso, trabalho num campo inumano, e preciso me apegar. Então... me perdoe...”

“O que vai fazer...”


Na Indonésia eles têm uma frase para isso – Djam Karet – a hora que se estende.


Na Stanza Heliordus do Vaticano, o segundo dos grandes quartos redesenhados para o Papa Júlio II, Rafael pintou (e seus discípulos terminaram) um magnífico afresco representando o histórico encontro entre o Papa Leão I e Átila o Huno, no ano de 452.

Nessa pintura é retratada a crença dos cristãos de que todo o lugar era protegido pela autoridade espiritual de Roma naquela hora de desespero quando os hunos vieram saquear e queimar a Cidade Santa. Rafael pintou São Pedro e São Paulo, descendo do paraíso para reforçar a intervenção do Papa Leão. Sua interpretação foi elaborada de uma lenda original, na qual apenas o apóstolo Pedro foi mencionado – esperando atrás de Leão com uma espada desembainhada. E a lenda foi elaborada de pequenos fatos que aparecem desde a antiguidade relativamente inalteráveis: Leão não tinha cardeais consigo e certamente nenhum apóstolo arraigado. Ele era um dos três na delegação. Os outros dois eram dignitários seculares do estado Romano. O encontro não foi – como a lenda nos fazer crer – fora nos portões de Roma, senão no nordeste da Itália, nada distante do que hoje é a Peschiera.

Nada mais se sabe desse confronto. Mesmo Átila, que nunca foi detido, não arrasou Roma. Ele se retirou.

Djam Karet. O campo de linha de força expelida no centro paralelo do por entre quando, um campo que havia pulsado através do tempo e do espaço e na mente dos homens pelo dobro de dez mil anos. Deteve-se repentinamente, inexplicavelmente, e Átila o Huno levou suas mãos à cabeça, sua mente girando como uma corda em seu crânio. Seus olhos ficaram vidrados, em seguida limpos, e ele inspirou do fundo do peito. Depois sinalizou para o exército retornar. Leão o Grande agradeceu a Deus e a memória viva de Cristo Salvador. A Lenda adicionou São Pedro. Rafael adicionou São Paulo.

Pelo dobro de dez mil de anos – Djam Karet – o campo havia pulsado, e por um breve momento que poderiam ser instantes ou anos ou milênios, foi interrompido.

Lendas não contam a verdade. Mais especificamente, elas não contam Toda a verdade: quarenta anos antes de Átila assolar a Itália, Roma foi tomada e saqueada por Alarico o Godo. Djam Karet. Três anos após a retirada de Átila, Roma foi mais uma vez tomada e saqueada, por Gaiserico, rei de todos os vândalos.

Havia uma razão para que a desvairada loucura deixassem de fluir para todo lugar e a todo tempo da drenada mente do dragão de sete cabeças...


Semph, traidor de sua raça, pairava ante a Concórdia. Seu amigo, o homem que acompanhou esse fluxo final, Linah, o Procurador da audiência. Falava serenamente, mas eloquentemente, do que o grande cientista havia feito.

“O tanque estava drenando; ele me disse, ‘Me perdoe, porque amo meu semelhante. Independente de quem seja, aonde quer que esteja. Eu preciso, trabalho num campo inumano, e preciso me apegar. Então, me perdoe.’ E se interpôs.”

Os sessenta membros da Concórdia, representados por cada raça que existia no centro, criaturas pássaros e coisas azuis e homens de cabeça grande e aromas de laranja com cílios trêmulos... todos eles olhavam para onde Semph pairava. Seu corpo e sua cabeça foram amassados como um saco de papel marrom. Todo cabelo se fora. Seus olhos estavam opacos e lacrimosos. Nu, cintilante, inclinou-se para um lado e uma brisa errante da câmara sem paredes o trouxe de volta. Havia se auto drenado.

“Peço para Concórdia para que este homem seja condenado ao último fluxo. Ainda que sua interposição tenha durado apenas alguns instantes, não há nenhuma maneira de saber qual o dano ou a inaturalidade que possa ter causado no por entre quando. Declaro que a intenção foi sobrecarregar o dreno para torná-lo inoperante. Este ato, o ato da besta que poderia condenar as sessenta raças do centro para um futuro cuja insanidade prevaleceria, só pode ser punido com o extermínio.”

A Concórdia ausentou-se e meditou. Uma atemporalidade mais tarde, reuniram-se novamente, e a acusação do Procurador foi acatada; a ordem era que a sentença fosse cumprida.


Nas margens silenciosas de um pensamento, o homem de papiro foi carregado nos braços de seu amigo, seu executor, o Procurador. Ali no por vir da quietude da noite empoeirada, Linah colocou Semph debaixo de uma sombra de um suspiro.

“Por que você me impediu?” a ruga com boca perguntou.

Linah desviou o olhar para além da galopante escuridão.

“Por quê?”

“Porque aqui, no centro, existe uma possibilidade”.

“E para eles, todos eles lá fora... nunca haverá uma chance?”

Linah sentou-se devagar, enfiando suas mãos na névoa dourada, deixando-a deslizar em seus punhos, voltando para refrescante carne do mundo. “Se podemos começar aqui, se podemos expandir nossas fronteiras, então talvez um dia, alguma vez, poderemos alcançar os confins dos tempos com uma pequena possibilidade. Até então, é melhor ter um centro onde não há loucura.”

Semph apressou-se com suas palavras. O fim estava chegando rapidamente. “Você sentenciou todos eles. Insanidade é um vapor vivo. Uma força. Pode ser engarrafada. O gênio mais potente na garrafa mais fácil de ser aberta. E você os condenou a viver sempre com ela. Em nome do amor.”

Linah emitiu um som que nem chegava a ser uma palavra, mas reprimiu. Semph lhe tocou o punho com um tremor que um dia fora sua mão. Dedos transmitiam suavidade e calor. “Sinto muito, Linah. Seu erro é ser um homem verdadeiro. O mundo é feito por retardatários. Você nunca aprendeu a sê-lo.”

Linah não replicou. Pensou apenas na drenagem que agora era eterna. Pôs-se em movimento e prosseguiu distraidamente.

“Vai fazer um memorial para mim?” Semph perguntou.

Linah assentiu. “É a tradição.”

Semph sorriu serenamente. “Então faça por eles; não por mim. Eu fui o que desejou o instrumento de sua de morte, e não preciso. Mas escolha um deles; não um importante, mas que significará tudo para os que o encontrarem, e compreendam. Levante um memorial em meu nome para um deles. Você o fará?”

Linah assentiu.

“Você o fará?” Semph perguntou. Seus olhos estavam fechados, e ele não viu o assentimento.

“Sim, o farei,” Linah disse. Mas Semph não pode ouvir. O fluxo começou e acabou, e Linah estava sozinho no côncavo silêncio da solidão.

A estátua foi colocada num planeta distante de uma estrela distante em um tempo ancestral que nem mesmo havia começado. Existiria nas mentes dos homens que viriam em breve. Ou nunca.

Mas se viessem, saberiam que inferno estivera com eles, que havia um Paraíso que os homens chamaram de Paraíso, e que ali havia um centro de onde toda loucura fluiu; e uma vez dentro do centro, havia paz.

Nas reminiscências de uma construção destruída que fora uma fábrica de camisetas, que ficava em Stuttgart, Friedrich Drucker encontrou uma caixa multicolorida. Enlouquecido pela fome e lembrando ter comido carne humana por semanas, o homem rasgou a tampa da caixa com seus tocos de dedos ensaguentados. Quando a caixa finalmente abriu, pressionada em certo ponto, ciclones romperam o rosto horrorizado de Friedrich Drucker. Ciclones e formas negras, aladas, rostos informes rompiam noite a dentro, seguidos pela fumaça púrpura que cheirava fortemente a gardênias murchas.

Mas Friedrich Drucker teve pouco tempo para refletir sobre o significado da fumaça púrpura, pois no outro dia, estourou a Quarta Guerra Mundial.

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