Oi, gente.
E aí, beleza? Pois é, falhei mais
essa semana. É o ânimo, sabe. E a vontade de escrever que já não é a mesma. As
coisas ainda estão daquele jeito. Só que o importante é não desistir, já que é
melhor tarde do que de noite, como eu sempre digo. Pois é. Então, hoje era para
dar continuidade com as roupagens de personagens, acessórios, lugares e tudo
mais. Bom, era. Isso porque me deu na telha de falar de outro assunto, sabe.
Sim, sim, que cheguei a tanger
nas vezes passadas. E que inclusive achei um texto da faculdade sobre isso,
além de dar um bom pano para manga. Isso porque o assunto é meio polêmico. Bem,
sem mais delongas, o que quero tentar mostrar para vocês hoje, amiguinhos e
amiguinhas, é a diferença entre pornografia e erotismo.
Bom, o motivo para isso já
postei. Vacilei muitas vezes, mesmo aqui no blog. E também seria legal para
separar bem as coisas, sabe. Ainda tenho bastante dificuldades de distinguir o
que pode ser considerado arte erótica de pornografia simples e pura. E, assim,
não sei se isso é óbvio para todo mundo, mas para mim a diferença é meio tênua,
entende? Hm... vou tentar te mostrar aqui.
A diferença mais clara entre
pornografia e erotismo é a de que a primeira relata o ato em si, sem
sentimentos, mecânico, visando apenas à satisfação própria. A segunda envolve
emoções além do prazer que o sexo pode proporcionar, sendo um todo, um momento
a ser compartilhado e vivido por dois amantes. Olha só, a Márcia Tiburi disse
uma vez que: “a moça do filme pornô está vestida de pornografia e a amante com
sua lingerie sensual veste-se de erotismo”.
É isso, basicamente. Partindo
daí, achei uns poeminhas legais que ilustram bem o que foi dito. Quevê? Vou
colocar dois que exemplificam. Vai lendo:
De Giacomo Casanova, Aventura da religiosa de Aix-em-Savoie,
com tradução de Álvaro Gonçalvez
“ Tirou
a touca e deixou cair a cabeleira; desatei-lhe o corpinho, e, num piscar
dolhos, tive diante dos meus uma dessas sereias como se vêem nos mais belos
quadros de Corregio. Não pude contemplá-la por mais tempo sem a cobrir com meus
ardentes beijos, e, comunicando-lhe dêsse modo meu ardor, vi-a prontamente
chamar-me para junto de si. Senti que não era o momento de refletir, que a
natureza falava e que o amor exigia que
eu agisse no instante de tão doce fraqueza. Precipitei-me sôbre ela, e, os
lábios colados à sua boca, apertei-a em meus braços amorosos, preludiando assim
a suprema felicidade.
Mas, no
meio de meus ardentes preparativos, ela tombou a cabeça, cerrou as belas
pálpebras e adormeceu. Afastei-me um pouco, afim de melhor poder contemplar os
admiráveis tesouros que o amor punha à minha disposição. A divina freira
dormia: não podia aproveitar-me do sono; mas mesmo que estivesse apenas
fingindo, podia eu, mau grado, saber que era astúcia de sua parte? Não,
certamente; pois verdadeiro ou fingido, o sono de uma mulher que se adora deve
ser respeitado por um amante delicado, sem todavia se privar dos gozos que êle
permite. Se o sono é verdadeiro, não corre nenhum perigo; se é apenas simulado,
é responsável pelos desejos que o inflamam. É perigo sómente medir suas
carícias de maneira a assegurar que são doces
ao objeto. M. M., porém, dormia realmente; o clarete havia entorpecido
seus sentidos, e ela cedera à ação sem segunda intenção. Enquanto a contemplava,
percebí que sonhava; seus lábios articulavam palavras incompreensíveis, mas a
volutuosidade que se desenhava em sua fisionomia radiosa fez adivinhar o motivo
de seu sonho. Despí-me e em dois minutos encontrei-me colado ao seu belo corpo,
sem saber muito bem se imitaria seu sono, ou se tentaria despertá-la para
tentar o desfecho de um drama que me parecia não poder mais adiar.
Não
fiquei por muito tempo na incerteza, pois os movimentos instintivos que ela fez
assim que sentiu junto ao santuário do amor o ministro que devia concluir o
sacrifício, me convencera de que acompanhava seu sonho, e que eu só a podia
tornar feliz transformando-o em realidade. Desviando docemente os obstáculos e
acompanhando os movimentos que minhas carícias imprimiam ao seu belo corpo,
levei a cabo o doce furto; e quando, no fim, não podendo mais me governar,
abandonei-me com tôdas as fôrças do sentimento, ela acordou com um suspiro de
felicidade, dizendo:
—Ah! Deus! então é verdade!
—Sim, deliciosa verdade. Sentes-te feliz, meu anjo? ”
E, bem, dá uma lidinha nesse
daqui:
Soneto XIII, de Bocage, dos Sonetos
“ É pau, e rei dos paus, não
marmeleiro,
Bem que duas gamboas lhe
lobrigo;
Dá leite, sem ser árvore de
figo,
Da glande o fruto tem, sem ser
sobreiro:
Verga, e não quebra, como o
zambujeiro;
Oco, qual sabugueiro, tem o
umbigo;
Brando às vezes, qual vime,
está consigo;
Outras vezes mais rijo que um
pinheiro:
À roda da raiz produz carqueja:
Todo o resto do tronco é calvo
e nu;
Nem cedro, nem pau-santo mais
negreja!
Para carvalho ser
falta-lhe um u;
Adivinhe agora que pau seja,
E quem adivinhar meta-o no cu.
”
Claro que exagerei bastante na escolha dos dois textos para tentar ser bastante claro com a primeira diferenciação das duas temáticas. A pornografia é agressiva ou no mínimo vai contra os padrões morais colocados na sociedade. Exalta o prazer, o gozo sexual ou a tentativa de obtê-lo e pronto, sem nada mais. Enquanto que na arte erótica, existe uma exaltação dos amantes como forma sublime do sentimento entre dois seres.
Mas nem por isso é isento de
maiores detalhes sexuais, como nesse texto de Guillaume Apollinaire, dos Poemas
para Lou, de tradução de Paulo Hecker Filho:
Minha querida Lou eu te amo
Minha cara estrelinha
palpitante eu te amo
Corpo deliciosamente elástico
eu te amo
Vulva que aperta como um
quebra-nozes eu te amo
Seio esquerdo tão rosa e tão
insolente eu te amo
Seio direito tão suavemente
rosado eu te amo
Mamilo esquerdo como o ressalto
na testa dum veadinho que nasce eu te amo
Mamilos feitos ninfas pelos
contatos eu os amo
Nádegas lindamente ágeis que se
empurram bem para trás eu as amo
Umbigo como uma lua vazia na
sombra eu te amo
Tosão claro como uma floresta
no inverno eu te amo
Axilas penugentas como um cisne
ao vir ao mundo eu as amo
Caída de ombros tão pura eu te
amo
Coxas de contorno estético como
colunas de templo antigo eu as amo
Orelhas orladas com pequenas
jóias mexicanas eu as amo
Pés sábios pés que se retesam
eu os amo
Rins cavalgadores rins potentes
eu os amo
Busto que nunca usou espartilho
busto flexível eu te amo
Costas maravilhosamente feitas
e que se curvam para mim eu as amo
Boca ó minha delícia meu néctar
eu te amo
Olhar único olhar-estrela eu te
amo
Mãos de que adoro o movimento
eu as amo
Nhariz singularmente
aristocrático eu te amo
Andar onduloso e dançante eu te
amo
Ó pequena Lou te amo te amo te
amo
Viu? Você consideraria esse poema
erótico ou pornográfico? Taí, difícil de dizer, né? Até onde entendo, esse
poema é erótico. O fato de o autor descrever cada parte do corpo da moça, não o
transforma apenas no objeto de desejo puro e simples, mas no objeto de
veneração complementar: ele a ama por inteiro, por mais que exalte suas
qualidades físicas.
Claro que pode-se levantar que o
autor esteja perdidamente apaixonado pela beleza descomunal da pequena Lou, mas
ainda assim (por mais falsa que seja essa atração do ponto de vista amoroso,
uma paixão efêmera e passageira) envolve-se no âmago de seus sentimentos, de
tal maneira a fazer um ode completo à ela.
Porém, o fato de envolver vulva, mamilos
e busto pode ser o bastante para parte das pessoas considerarem um poema
pornográfico. Mas será que é mesmo? Essa foi umas das principais questões que
me levaram a discorrer sobre esse assunto. Então rumbora sair dos poemas e ir
para os conceitos teóricos. Vem comigo, galera!
Eros era o deus mais jovem e belo
dentre todos os outros. Não cometia injustiças e não as aceitava. Diz a lenda
que era filho de Pênia (Pobreza) com Poros (Riqueza), tendo a natureza mortal
da mãe e a natureza imortal do pai (um deus). É pobre, carente e insaciável ao
mesmo tempo que ardiloso e imortal. Acaba por ser sempre a busca daquilo que
não se possui, por ter sua própria natureza de conseguir o que lhe falta e
perder em seguida. Em suas flechas escondia o poder do desejo, o impulso
erótico.
Procevê. É dele que provem a
palavra erotismo, já que representava o deus do amor e das paixões carnais.
Sejam tais atrações o desejo, a admiração, o bem querer do outro pela
identificação de caráter.Aristóteles, mesmo, não excluía a beleza física, muito
menos a intelectual: era comum para os gregos admirarem o raciocínio
inteligente pelo diálogo, tanto quanto na admiração da beleza física ou como
nos esportes. E aqui temos nosso primeiro ponto importante.
Ó só, vamos analisar com calma.
Às mulheres, não era permitida participação na vida política. Isso quer dizer
que elas não tinham direito ao coração dos homens, pois a admiração era focada
aos dotes eloquentes e lógicos de pensamento. Entendeu? Não tenho espaço para
mostrar suas ideias e demonstrar sua inteligência, perdiam a atenção dos homens
por algum rapaz bonito que sabia falar bem.
E isso não era nada de mais. Isso
era, na época, algo erótico e não pornográfico. Isso mesmo, pederastia não era
nada de mais. É aqui que é importante frisar: os conceitos de erotismo mudam
conforme a época e os costumes. Pornografia é posta como algo mecânico e sem
sentimentos, também como algo doentio ou repugnante. Pederastia nos causa
repugno hoje, mas na antiga Grécia não – mesmo porque não era o simples fato de
aliciar garotinhos e sim de admirar sua habilidade com o raciocínio.
Claro que temos um amplo exemplo que hoje se enquadraria no aspecto pornográfico no Império Romano – as cortesãs, a vida das prostitutas, a homossexualidade, a riqueza erótica das estátuas nuas que serviam para masturbação – além dos imperadores como Nero, Tibério e Calígula, que se lambuzaram como puderam de tudo que é forma sexual conhecida até então.
Pois é. Mas aí veio a época
medieval e a coisa mudou. A ideia de pecado é criada. Sim, os erros cometidos
dos homens (e mulheres) contra Deus e a ordem de todas as coisas que Ele
supostamente criou. O objetivo era eliminar toda e qualquer manifestação de
sexualidade – dentre eles o erotismo – através da culpa, da punição e de
castigos físicos. Mais ainda: não somente os erros visíveis, mas também os
invisíveis, conhecidos apenas pelo pecador.
Sim, sim, parte da fantasias e
desejos íntimos de cada um. Uma tentativa de reprimir por inteiro todos os
instintos presentes nas pessoas – agressivos e sexuais. De fato, as confissões
feitas teriam de explicitar todos os aspectos: incluindo a posição dos
parceiros, atitudes, gestos, momento exato do prazer... claro que tais valores
valiam para os fiéis subalternos, já que a elite de papas, bispos e afins
transitavam impunemente cometendo os então pecados.
Um exemplo bem claro pode ser
vista na obra do século XIV, Decameron de Bocaccio, mostrando as confissões das
pessoas da nobreza ligadas a aventuras de amantes e maridos infiéis. O sexo
aqui era promíscuo. Existem também outros filmes onde é retratado a vida da
nobreza e como lidavam com o sexo, como o bem conhecido Ligações Perigosas.
Então veio o Renascimento.
Arentino publica os contos eróticos na Itália e na França surge o mais famoso
escritor de erotismo, no ano de 1740. Quem seria? Nosso famoso Marques de Sade,
que associava sexo e crueldade em meio à luxúria palaciana. Sim, sim, sexo com
requintes de crueldade, o que hoje seria literatura pornográfica da boa. Aqui
sai a concepção de pecado surgindo a culpa e a perversão, sendo a transgressão
algo bem próximo da proibição.
O Marquês mesmo dizia que o modo
de prolongar os desejos é impondo limites para que pudessem então ser
transgredidos. O sadomasoquismo se consolidou com Leopold Von Sacher-Masoch com
a Vênus de Peles, na Áustria. E também John Cleland publica Fanny Hill,
importante obra inglesa pornográfica.
E aí vem Nietzsche. Quero dizer,
não necessariamente por ordem cronológica, mas ele que tinha nojo de todo e
qualquer cristão tem uma visão peculiar sobre erotismo, pornografia e a coisa
toda. Sim, porque ele foi um estudioso dos valores morais, então,
conseqüentemente... pois é. Segundo suas teorias, a tirania e crueldade
primitivas impuseram aos indivíduos critérios ético-morais para sujeitar todos
os homens para que fosse possível uma vida em sociedade.
Tais critérios foram assimilados pela violência bestial, já que a dor é o meio mais rápido para a formação da memória. Assim, estaria gravado de forma indelével os novos valores nas mentes dos homens e mulheres. Bem, é uma teoria válida e concisa e a única forma que consegui encontrar para que, por exemplo, justificasse minha própria necessidade de distinguir pornografia de erotismo.
Mas, continuemos. Passemos dessa
fase em que se buscava saber de quantos cortes eram precisos para com a dor
purificar o espírito. O corpo passa a ser objeto de estudo e não somente uma
fonte interminável de pecados. Com as descobertas científicas, pensa-se sobre
formas de combater as doenças, assim como a classificá-las. Surgem os
hospitais.
Assim como monastérios, as
escolas e o exército, o hospital é outro local da disciplina. Os “doentes” eram
isolados e impostos a novos hábitos sociais e morais. Aos poucos, perde-se a
espontaneidade, a naturalidade. A perda do erotismo pelo estabelecimento de
comportamentos aceitos – senão o começo de uma separação do que seria aceitável
e do que não seria.
Mas, bem, acho que estou
desviando um tanto do foco. Vamos ver, o próximo grande acontecimento é graças
às mudanças industriais da Modernidade. As pessoas precisavam trabalhar muitas
horas por dia, trabalhos mecânicos e repetitivos. Mais ainda: transformavam (ou
transformam) o desejo em produto, criando uma necessidade no consumidor.
Senão vejamos: trabalhar, ainda
hoje, ocupa a maior parte do tempo das pessoas (as normais, que tem um emprego,
não os vagais como eu e talvez um ou outro dos meus amiguinhos e amiguinhas que
leem isso aqui agora). Assim, pouco tempo livre resta para o lazer. Ele precisa
ser preenchido e os meios de comunicações oferecem diversos produtos que
incitam o desejo e criam necessidades nas pessoas. A indústria cultural dá um
empurrãozinho.
Entrementes, a sexualidade acaba
por ficar arraigada a genitalidade, somente. Ao aspecto pornográfico. Isso
porque, com o atual sistema, praticamente todas as coisas podem ser vistas como
produtos e todos podem ser vistos como consumidores em potencial. Basta passar
a imagem de que determinado produto, ao ser adquirido, trará a satisfação e o prazer,
mesmo que seja de âmbito sexual.
Pois é, minha formação é
marxista, fazer o que, né? Existe coerência na teoria dos caras, apesar de eu
já ter dado chilique aqui outras vezes. Então, quando o sexo passa a ser um
produto, pode ser visto como pornografia – já que não envolve afetivamente ou
no nível das necessidades naturais das pessoas. É outra forma de ver a questão
e presenciar a diferença.
Aliás, o termo pornografia vem de
um achado das ruínas de Pompeia, uma série de objetos e pinturas sexuais explícitas
pintadas nas paredes das casas. O termo vem do grego e significa “escrito sobre
prostitutas”, já que as cenas de sexo retratavam as cortesãs da época. Sim,
sim, a etimologia da palavra já diz seu real significado, mesmo. O conceito
mais carnal, imoral e de sexo enquanto produto a ser consumido.
Pornografia seria o lado das perversões sexuais, oposto de sadio. Apesar de serem duas faces de uma mesma moeda, o pornô seria o lado maldito. Tal percepção serviria para mostrar de outra forma de separação de grupos sociais. Bem como afirma o Pierre Bourdieu. Procevê! Vou tentar explicar mais ou menos o que entendo sobre isso, já que nunca consegui entender o Bourdieu direito.
Malditos franceses e sua mania de
complicar tudo ao invés de facilitar nossas vidas!
Aham... tal diferenciação
serviria como uma forma de hierarquização social. A pornografia, além de ser o
sexo dos outros (aquele que não é meu e que não me diz respeito), torna-se
associada às classes populares e daqueles que não possuem o chamado capital
cultural, não possuindo o gosto legítimo. Assim, a pornografia é ligada a
penúria material e a miséria moral – caracterizando quem a consome.
Porém esquece-se, como bem
coloquei no comecinho do texto, que o erotismo também pode ser alvo de mercadoria,
um produto – na forma de literatura. O que reforça mais tal ideia é a de que o
produto pornografia é incomparavelmente mais barato e acessível que o produto
erotismo (livros, filmes, músicas) sendo associado às camadas populares.
Taí outro ponto de diferenciação.
Vamos revisar, então. Erotismo
está ligado a nossa afetividade, acontecendo por um estímulo ao impulso sexual.
Apesar de toda ética e moral, não pode de todo ser controlado pelo consciente
e, quando esse impulso é reprimido de maneira brutal, causa uma série de
problemas e desvios de conduta.
Sendo assim, é necessário um
equilíbrio desses impulsos e, por isso, algumas práticas são aceitas na
sociedade. Tais práticas variam conforme o tempo passa e se diferenciam de uma
sociedade para outra, conforme suas necessidades. A pornografia nada mais é do
que um tipo de erotismo que visa uma realização sexual concreta, por meio de
materiais, objetos ou mesmo situações que estimulem o desejo.
Nos padrões atuais, para
diferenciação, tudo aquilo que é explícito é delegado à pornografia, e o que
possui caráter implícito, ao erotismo. A relação genital e sem envolvimento,
enfatizando o prazer solitário e masturbatório diz respeito à primeira, e a de
caráter artístico, com profundidade e clima de paixão, à segunda.
Como somos seres pensantes e
imaginantes, o erotismo tem caráter subjetivo e cada um possui seu ideal de
homem ou mulher – não levando em conta se tal padrão foi ou não imposto por
alguém. Entrementes, não existe um padrão determinado. Todavia, pode-se saber
de maneira eficaz como investir eroticamente em seu amante, dentro dos padrões
de gênero.
Enrolei bonito, agora. Mas desenrolo. Não tem como saber qual é a fantasia de cada um (e todos tem fantasias, caso você negue está, na verdade, é reprimindo a sua, inconscientemente) só que é de entendimento geral que homens e mulheres são diferentes e possuem formas de se estimular de maneira diferente. A partir daí, dá para entender a quantidade e diversidade dos produtos eróticos e pornográficos.
O erotismo masculino é visual,
genital. Foca-se em certas partes do corpo feminino excitando-se dessa forma
com a nudez feminina. Fotografias, estátuas e literatura erótico-pornográfica
são ótimos instrumentos para excitar os homens. Para um material pornográfico
masculino eficaz, basta uma sucessão de atos sexuais, sem necessidade de uma
história, servindo apenas como acessório para masturbação ou preliminares. Não
se faz necessário tempo para conquista e prelúdios amorosos: as mulheres são
fabulosamente sensuais e possuem o mesmo impulso masculino.
O erotismo feminino é tátil,
auditivo, ligado a odores e ao contato. O romance pede o apaixonar-se, o homem
a que ela se apaixona, belo, forte, seguro, distante e inatingível, que ao
toque de mágica, se apaixona por ela. Então surge a rival, sedutora, que ameaça
sua conquista e, após muitas desventuras, ambos se veem apaixonados. O homem é
redimido e aceito pela mulher. Em tais contos, a paixão vem sem ser chamada,
traz dor, sofrimento, mas que ao final vence o ciúme e a ansiedade, o medo de
não ser amada da moça.
No quesito de materiais
pornográficos, as mulheres também podem se excitar com a nudez masculina, mas é
mais comum fantasias com homens vestidos, principalmente de uniforme. Também
existe a preferência por perfumes vigorosos e ternos macios. Claro que estes
são os padrões, não as regras. Como eu disse ali em cima, o caráter da coisa
toda é subjetivo, cabe a cada um definir o que melhor lhe apraz.
Assim mesmo, minha gente. Assim
mesmo. Então, acho que era isso que queria dizer. A diferenciação, o motivo e a
necessidade de fazer e, por fim, não mais manifestá-la ao mundo. Pelo menos não
de forma explícita, né? E não aqui. É verdade, nenhum de vocês merece saber das
minhas loucuras em todos os sentidos. O texto foi uma forma de expressar,
entender e finalizar o assunto.
Sim, sim, nada do gênero por essas
bandas. Esse é o ponto final, ou pelo menos uma tentativa. E me perdoem se
chateei muito vocês, pessoal. Tudo certo e entendido, vou ficando por aqui,
então. Não sei quando eu volto, mas espero que logo – e espero te ver por aqui
de novo. Podicê?
Então, tá. Para encerrar, um
último texto, que é um dos mais bonitos.
Expressa um pouco de desespero, sabe e, bem, apesar de estar abandonando esse
meu lado “pervertido” de ser, não é sem dor... mas chega de drama! Espero que
vocês gostem também, amiguinhos e amiguinhas. Até mais, então!
Salomé, de Oscar Wilde traduzido por Dirceu Villa:
Salomé — Ah!
não permitirias que eu beijasse tua boca, Iokanaan. Bem, eu vou beijá-la agora.
Eu vou mordê-la com meus dentes como se morde uma fruta fresca. Sim, eu vou
beijar tua boca, Iokanaan. Foi o que eu disse; não foi? Foi o que eu disse. Ah!
eu vou beijá-la agora... Mas por que não olhas para mim, Iokanaan? Teus olhos
que eram tão terríveis, tão cheios de raiva e desprezo, estão fechados agora.
Por que estão fechados? Abre teus olhos! Ergue tuas pálpebras, Iokanaan! Por
que não olhas para mim? Tens tanto medo, Iokanaan, que não olharás para mim?...
E tua língua, que era como uma cobra vermelha espalhando veneno, já não se
move, não diz uma palavra, Iokanaan, aquela víbora escarlate que cuspia seu
veneno sobre mim. É estranho, não achas? Como pode a víbora rubra não mais se
mexer?... Nada querias comigo, Iokanaan. Me rejeitaste. Disseste palavras más
contra mim. Punha-te diante de mim como se diante de uma puta, como se diante
de uma vadia; eu, Salomé, filha de Herodias, princesa da Judéia! Bom, ainda
estou viva, mas tu estás morto, e tua cabeça me pertence. Posso fazer com ela o
que quiser. Posso jogá-la aos cães e aos pássaros do ar. O que os cães deixarem
os pássaros do ar devoram... Ah, Iokanaan, Iokanaan, foste o único a quem amei
entre os homens! Todos os outros me eram odiosos. Mas tu eras belo! Teu corpo
era uma coluna de marfim posta sobre pés de prata. Era um jardim cheio de
pombas e lírios de prata. Era uma torre de prata adornada com anteparos de
marfim. Nada havia no mundo de tão branco quanto teu corpo. Nada havia no mundo
de tão negro quanto teus cabelos. No mundo todo nada havia de tão vermelho
quanto tua boca. Tua voz era um incensário que esparzia estranhos perfumes, e
quando olhava para ti eu ouvia uma estranha música. Ah! Por que não olhaste para
mim, Iokanaan? Com o manto das tuas mãos, e com o manto das tuas blasfêmias,
escondeste teu rosto. Puseste sobre teus olhos o velame daquele que via seu
Deus. Bem, tu viste teu Deus, Iokanaan, mas a mim, a mim nunca viste. Se me
tivesses visto, tu me amarias. Eu te vi e te amei. Oh, como te amei! Eu te amo
ainda, Iokanaan. Amo apenas a ti... eu tenho sede da tua beleza; eu tenho fome
do teu corpo; e nem vinho nem maçãs podem aplacar o meu desejo. O que devo
fazer agora, Iokanaan? Nem as cheias nem as grandes águas podem saciar minha
paixão. Eu era uma princesa, e me desprezaste. Era uma virgem, e não quiseste
tomar de mim a minha virgindade. Era casta, e encheste minhas veias de fogo...
Ah! ah! por que não olhaste para mim? Se me tivesses olhado, tu me amarias. Sei bem que me terias amado, e o mistério do
Amor é maior do que o mistério da Morte (...)
Ah! Beijei tua boca, Iokanaan, Beijei tua boca. Havia um sabor
amargo nos teus lábios. Seria o sabor de sangue?...Não; mas talvez fosse o
sabor do amor... Dizem que o amor tem um sabor amargo... Mas o que importa? o
que importa? Beijei tua boca, Iokanaan, beijei tua boca.







O desenvolvimento ficou um tanto confuso, mas gostei do que li e adorei as referências literárias!
ResponderExcluirAcho que ficou confuso porque ainda não sei distinguir bem um do outro. Para mim, é uma linha muito tênue, sabe...
ResponderExcluirE além disso, usei um texto marxista da faculdade, de uma professora de Antropologia. E aí já viu. É, ainda tenho birra com Marx!